terça-feira, 9 de setembro de 2008

Episódio 1 - O Resgate de Emili


E os vampiros da UFRN


Era um dia como qualquer outro em Natal. O sol estava coberto por nuvens e o clima estava agradável. A paisagem litorânea ganhava um tom cinzento que dava mais beleza ao toque da pouca luz. O dia passou lentamente com todas as pessoas da capital seguindo suas rotinas, com o mesmo tédio de sempre ao retornarem cansados dos trabalhos, faculdades, estágios etc. Ao chegar à noite, alguns universitários rumavam para o campus da UFRN, e é onde começa nossa história.

A aula estava um tanto enfadonha (como de costume) na sala do 3º período do curso de História. Como era uma quarta-feira, haveria aula da disciplina Teoria da História, e era uma matéria que estressava muito e deixava sempre os alunos em péssimos humores. A aula desenrolava-se em uma discussão textual na qual um grupo de amigos retirara-se da sala, por se tratar de um texto tão confuso e um tanto “viajante”.

- Porra meu irmão! O tal do Adam “Chato” faz jus ao nome, visse? O cara é mais chato de entender, do que ter que aturar a Vavy um ano inteiro! – falou Paulo César um tanto indignado.

- Concordo. Mas, acho que vou reler o texto quando chegar em casa. A prova já está bem aí, é próxima semana. – falou Helaine.

- Eu não sei é mais de nada! Eu já tranquei mesmo! Sei nem o que diabos eu estava fazendo dentro da sala de aula! – fala Tiago, batendo no ombro do seu amigo Tyego, que permaneceu quieto.

-Vai ver você tava com saudades do “diabo amarelo”, heim? – falou Saulo, curtindo com a cara de Tiago.

- Sai daê! Mané saudades daquele bicho! Quanto mais longe, melhor! – defendeu-se Tiago, o que rendeu as gargalhadas dos amigos.

- É... Se eu me der mal nessa prova, acho que eu também vou trancar... Mas, vamos mudar de assunto, porque eu num quero ficar esquentando minha cabeça por nada. – fala finalmente Tyego.

Os amigos estavam continuando a conversa falando de diversos assuntos, quando prestaram atenção a um calouro um tanto eufórico que se dirigiu a eles após ter gritado várias vezes o nome de outra caloura. Ele parecia preocupado e um tanto cansado. Provavelmente estivera correndo ou algo do tipo. O calouro chamava-se Luiz Pedro, mais conhecido como “Pedin”, e ele foi falar com seus amigos veteranos.

- Pessoal! Pessoal! Vocês viram a Emili por aí? – perguntou Pedin com ar de preocupação.

- É uma baixinha? – perguntou Paulo César.

- Sim, sim!

- Loirinha...? – perguntou Tyego.

- Essa mesma!

- Bem sorridente né? - perguntou Tiago.

- Sim homem! Cadê ela?

- Rapaix... Ela num passou por aqui não. Pelo menos, não enquanto estávamos aqui. – respondeu Saulo. O calouro não perdeu o ar sombrio, o que deixou os seus amigos um tanto inquietos.

- O que houve calouro? – perguntou Helaine.

- Estou pensando o pior pessoal... – falou o calouro Pedin.

- Vai me dizer que ela foi raptada? – falou Tyego.

- Ou sei lá... Foi abduzida? – falou Paulo César.

- Não sei. Mas, acho que vou procurá-la... Alguém pode me ajudar? – perguntou Pedin.

- Eu posso! Gosto muito da Emili e também eu não vou assistir a segunda aula. – falou Tiago aderindo à idéia do calouro.

- Bem... É... Eu também posso ir... – falou Paulo César, também gostando da idéia.

- Que bom! Mais alguém? – falou ansioso Pedin.

- Não poderei. Hoje eu tenho que me reunir com o grupo do seminário de RN I. Mas, acho que nada demais ocorreu a ela, calouro. – falou Tyego.

- É verdade. Eu também acho isso. Vai dar tudo certo! Por mim, eu iria, mas vou ter que encontrar meu namorado agora no intervalo... Sabe como é né? A gente mal se vê... – fala Helaine, com um bom argumento segundo as pessoas do grupo que estava se formando.

- E eu vou assistir à aula de RN. Estou com umas faltas aí e num posso mais perder aula. – disse Saulo.

- Você coloca nossos nomes na lista, Saulo? – perguntou Tiago.

- Beleza das rosas. Anotem seus nomes completos aí. – falou Saulo entregando o caderno que ele estava segurando.

- Valeu! – falou Paulo César, notando seu nome e em seguida passando o caderno para Tiago anotar o nome dele também.

Os três seguiram em direção ao corredor dos blocos de aulas onde daria início a sua procura. Olhavam atentos, desde pessoas sentadas nos bancos, às pessoas escondidas namorando. Procuraram sem sucesso por entre as salas, blocos e a cantina, aumentando cada vez mais a preocupação dos amigos.

Eles seguiram de volta em direção ao bloco A, onde eles encontraram-se para iniciar a jornada e lá se depararam com um veterano grande amigo deles, o Rodrigo-sensei.

- E aí Sensei? Beleza? – falou Tiago apertando a mão de Rodrigo e depois o toque de mãos da Aliança Histórica (onde um membro da Aliança saúda outro com um leve soco na mão do outro).

- Beleza. O que vocês estão fazendo andando com um calouro? – perguntou Rodrigo.

- Ah, eles estão me ajudando a achar a Emili... – respondeu Pedin.

- Emili? E ela sumiu?

- É... Estamos procurando por ela há um tempão já, mas sem sucesso algum... – falou Paulo César.

- Vixe... Posso ajudar vocês? Emili é muito legal e também eu dou valor a ela. – falou sensei aderindo à causa.

- Bem vindo ao grupo, Sensei! – falou Tiago batendo levemente no ombro do amigo.

Juntos eles seguiram nas direções mais obscuras da universidade, onde teoricamente funcionava o “morro do Setor II” ou “boca-de-fumo da UFRN”. Lá seria o local de maior perigo que o grupo poderia aparecer, fora outros detalhes importantíssimos, de pessoas estranhas as quais eles haviam passado. Até mesmo os corajosos amigos sentiram um pouco de medo ao se depararem com um local de clima tão pesado e aparentemente hostil.

- Nunca vi essas pessoas por aqui... – falou Rodrigo-sensei.

- Nem eu... E preste atenção aí... Eles são estranhos pra caralho... – falou Tiago.

- É... Parece um bando de vampiros de tão pálidos... – falou Paulo César.

Mal sabiam eles os perigos que realmente enfrentariam nesse local, pois os pálidos aos quais eles referiam-se eram realmente vampiros que eram antigos alunos da UFRN quando jovens, e escolheram a universidade como seu refúgio.

O local era obscuro, eles sentiram-se como se não estivessem mais na UFRN, e sim em uma cidadela fantasma ou algo do tipo. Os prédios eram arruinados, as residências dos alunos eram precárias e as plantas próximo ao local eram secas e sem vida, apenas algumas sobreviviam por serem cactos, ou resistentes mesmo. O mais interessante é que eles estavam passando por uma época de chuva e esse lugar parecia não ver água há anos.

- Caramba... Ainda estamos na universidade? – perguntou Pedin.

- Teoricamente sim – respondeu sensei – mas, eu nunca vim por esses lados não.

- É... Muito estranho mesmo... É como se esse local não fosse mais a universidade, e sim outra dimensão. – falou Tiago, sem saber que estava correto.

- Ta com cara mesmo... – concordou Paulo César.

Eles seguiram por um antiguíssimo bloco de aulas, onde havia muitos alunos encostados e conversando, ou simplesmente sentados nos bancos ou chão. Uma coisa interessante é que as luzes também eram fracas, como se a administração da universidade realmente não se importasse com esse local.

Os amigos seguiram até um grupo de estudantes, sendo dois deles bem pálidos, e os demais de cor um pouco escura.

- Com licença pessoal – falou Rodrigo-sensei – vocês viram por aí uma garota baixinha, branquinha, loirinha e de olhos escuros?

Um dos rapazes pálidos olhou com um ar de superioridade. Ele tinha cabelos longos e encaracolados, uma barba fechada e bem cheia, olhos escuros como a noite e um rosto muito grave.

- Loirinha? Baixinha? Olhos negros, hã? Acho que vi... Mas, creio que no setor II, onde é cheio de meninas assim... – falou o pálido, e os demais companheiros dele caíram na risada.

- Desculpa incomodar amigo... É porque estamos procurando uma garota específica... O nome dela é Emili e... – falou Tiago.

- Emili! Sim, sei quem é! É uma caloura de História, correto? – interrompeu um dos morenos do local.

- Exatamente cara! Você a viu passando por aqui? – falou Pedin um tanto excitado por eles terem encontrado alguém que conhecesse Emili naquele local tão macabro. E o mais impressionante é que o rapaz pareceu ler os pensamentos de Pedin.

- Pode não parecer amigo, mas eu estudo no setor II, faço Letras (inglês), é porque aqui estão meus amigos. Rapaz, eu ouvi dizer que o João tava querendo falar com ela e parece que mandou chamar...

- E quem seria esse João? – perguntou Paulo César.

- Só o líder do CA de Química do Petróleo. – falou um dos rapazes pálidos. – Mas, um conselho que eu dou a vocês é que tomem muito cuidado andando por aqueles locais a noite... Hehehehe...

Os amigos estranharam a reação, mas agradeceram as informações e seguiram de volta para onde eles eram acostumados a rumar em direção ao setor IV.

- Rapaz, essa procura ta ficando muito estranha... – falou Paulo César.

- Estranho? Estranho foi o modo de aqueles caras falarem... Ta parecendo até que ela foi raptada. - falou Tiago.

- Cara melhor nem pensarmos nisso... – disse Pedin.

- Ou, sei lá, vai que ela nem tenha ido falar com esse tal de João... É uma hipótese. – falou Rodrigo tentando acalmar os amigos.

Eles seguiram em direção ao setor II, mas por incrível que parecesse, eles estavam andando em círculos. Passaram umas duas vezes pelo grupo ao qual eles se informaram e não sabiam mais para onde estavam seguindo. Tentaram vários caminhos diferentes e sempre voltavam à escala inicial. Até que eles rumaram novamente para o grupo de amigos que eles se informaram antes e foram recebidos com risadas de desdém.

Um dos rapazes explicou que após entrar nesse local, você só saía ao amanhecer, o que assustou e muito os amigos.

- Não pode ser verdade. Essa universidade não tem nada de místico! Como isso pode ser real? – perguntou Rodrigo-sensei meio que assustado.

- É a verdade, garoto. Se quiserem sair daqui, vão ter que esperar o amanhecer. E vocês não estão mais na universidade... Vocês passaram para a penumbra, que fica na entrada do “morro do setor II”. Ou vão me dizer que vocês não notaram que isso aqui é um local totalmente mórbido? – falou o rapaz de barba fechada que havia falado com eles anteriormente. Os amigos entreolharam-se aflitos.

- Então quer dizer que estamos em uma realidade paralela a nossa? – perguntou Rodrigo.

- Exatamente. Sorte de vocês que não somos hostis, porque se não a essa altura do campeonato os senhores já estariam mortos. – respondeu outro rapaz pálido.

- Mas, homem... Eu tenho que ir pra casa. – falou Pedin.

- Só você? Eu tenho que estudar para Teoria! – falou também Rodrigo.

- É. Vocês lembram-se dos seus problemas e esquecem nossa missão. – falou Tiago repreendendo os amigos.

- Exatamente. Se não acharmos a Emili, vamos ter ficado presos aqui à toa. – falou Paulo César.

- É verdade – concordou sensei – mas, tipo... Esse João é daqui ou de lá? Se é que vocês me entendem...

- Ele é daqui. E a sede do CA é no setor IV. Podem seguir em direção ao setor IV aqui da penumbra que ele está lá. A garota Emili deve estar por aqui também. Sabemos de todos os mortais que estão por aqui e vocês não são os únicos. Tem mais alguém fora vocês... – falou um dos rapazes morenos.

- Quer dizer então que os senhores não são mortais assim como nós? – indagou Tiago.

- Não. Somos mais do que isso... Mas, também não precisamos revelar. Só tomem cuidado com outros que vão encontrar por aí... No setor III e IV o pessoal é mais hostil. Se vocês verificarem bem, essa é uma réplica do setor II, prestaram atenção? Se não, verifiquem bem. Num é a toa que os senhores andaram em círculos... Vocês procuravam uma passagem que não existia que só aparece pela manhã, quando nós saímos daqui. Enfim, vão em direção da biblioteca e sigam para o setor III, o mundo ta um pouco diferente e a aparência das coisas também, mas tenho certeza que vocês chegarão lá. – explicou o rapaz pálido barbudo e cabeludo. – a propósito, qual o nome de vocês?

- Meu nome é Rodrigo, esse aqui é Tiago, esse Paulo César e esse aqui o CALOURO Pedin. – falou Rodrigo e apertou a mão do rapaz, que apertou em seguida a mão de todos.

- Ah bem. Meu nome é Paulo também, esse aqui é André, aquele ali é o Renê, esse aqui o Ricardo e o Adriano. Nós éramos alunos de Jornalismo quando estávamos do lado de lá. A gente só aparece lá quando está com fome... Se é que vocês me entendem... – falou Paulo.

- Acho que entendo... Bom, foi um prazer conhecê-los! A gente se vê por aí. – fala Rodrigo se despedindo do pessoal.

- Não meu amigo. Não queira se encontrar com a gente se estivermos do lado de lá... Não é interessante... Se quiserem nos visitar por aqui, sejam bem-vindos, aqui a gente está satisfeito e não atacaremos ninguém.

Pareceu um tanto estranho para os amigos escutarem aquelas palavras, deu muito que pensar. A mente rpgista de Tiago começou a funcionar e ligar teorias interessantes com relação aos garotos. Ou eles eram espíritos, ou vampiros (como Paulo César havia sugerido). De qualquer maneira, pediu para seguirem com cautela.

Como o “vampiro” Paulo havia dito, o pessoal apenas observava a passagem dos amigos, e nada faziam. Eles seguiram pelos blocos de aula precários que outrora no mundo deles estaria em melhor estado, e se impressionaram também com a quantidade de pessoas existentes nessa chamada penumbra. Eles caminharam até onde seria o bloco A e seguiram na direção “azulão” e viraram a esquerda ficando de frente à biblioteca, o que foi um choque para eles. A biblioteca encontrava-se em estado altamente de ruínas. Não existiam mais portas, o teto estava quase todo a baixo, janelas destruídas, manchas de sangue pela parede da frente da biblioteca. Era como se aquele local tivesse sido usado como campo de batalha sangrenta. Eles até pararam para dar uma olhada.

Dentro da biblioteca, não havia luzes, mas havia ruídos freqüentes que vinham do interior. Uma mistura de pancadas com passos, gritos e gemidos. Um ambiente um tanto pesado, que os amigos decidiram não enfrentar. Seguiram pela lateral esquerda da biblioteca em direção ao setor IV, mas se depararam com outra cena totalmente nova para eles. O local é abundantemente habitado por árvores, agora havia caules secos, alguns até precariamente vivos e cinzentos, e no chão era como se houvessem charcos, pois o local estava pantanoso. Até fogos fátuos eram encontrados vagando por aí. Tiago adiantou-se e testou a profundidade dos charcos e verificou que não passava dos joelhos, mas mesmo assim deveriam seguir com cautela, pois o terreno iria ficar mais baixo um pouco mais a frente e a profundidade poderia aumentar, mas ele estava enganado. Por incrível que parecesse, a água seguia o padrão do terreno. A água era pastosa e não possuía um cheiro agradável, era quente e incomodava bastante. Ainda saíam vapores de gases desconhecidos para os historiadores, mas nem por isso eles desanimaram. Logo à frente eles localizaram os blocos de aula que seriam do setor III.

- Estamos chegando... Com muita luta, mas estamos... – falou Pedin.

- É... E eu espero que ela esteja aí, senhor calouro! – falou Rodrigo-sensei.

- Também espero... Mas, nem por isso iríamos desanimar né? Ela é nossa amiga, pô... – falou Tiago.

- Fale por você. Eu já estou pra lá de desanimado com o diabo dessa água (ou ensaio de uma) quente aqui me incomodando. – falou Paulo César.

- Mas, ele está certo mesmo PC. Pelo menos estamos procurando a caloura. – falou Rodrigo.

- E eu espero que a gente ache! – falou PC de volta.

Eles seguiram em frente até que chegaram aos blocos de aula do setor III. A água no local era só na lateral dos corredores. Os amigos subiram um degrau e saíram da água suja rumo ao corredor principal dos blocos de aula. Lá eles viram muitas “pessoas” reunidas em pequenos grupos, que olharam imediatamente para os estranhos visitantes. A aparência do setor III não diferia muito da do setor II que eles haviam visitado há pouco. Salas destruídas, luzes fracas, manchas nas paredes, alguns locais sem luz e pessoas olhando. Mas, um grupo um pouco a frente conversou entre si e os membros do grupo levantaram-se do chão, onde estavam sentados e adiantaram-se para os visitantes.

- Ora, ora! O que temos aqui? Mortais de História? – falou uma menina pálida, de cabelos vermelhos, olhos negros, rosto afilado e sem marcas. Era até bonita.

- Olá. Estamos procurando o CA de Química do Petróleo. – falou Rodrigo-sensei.

- Olha só pessoal! E ele fala! – mais uma vez falou a garota ruiva, que rendeu sorrisos malignos dos amigos.

- Bem, eu só estava querendo uma informação... Mas, se não querem nos dar... Paciência... – falou Rodrigo virando para chamar os amigos para seguir caminho.

- Alto lá mortalzinho. Pra onde você pensa que vai? – falou a ruiva mais uma vez.

- Eu acabei de falar. Como você não quer nos ajudar a gente pergunta a outra pessoa. Tem problema não. – falou Rodrigo mais uma vez virando-se para os amigos. – Vamos pessoal?

- Vamos. – falou Pedin.

A garota ruiva olhou com um ódio imenso nos olhos e estava a ponto de partir para uma briga, mas conteve-se.

- Olha mortal. Muitos morreram por bem menos que isso! – ameaçou a ruiva. Os amigos entreolharam-se. Realmente ela tava querendo briga.

- Não estamos a fim de embates, garota. Apenas queremos achar nossa amiga. – falou Tiago. A garota o olhou com desprezo e nojo.

- Ah, fala daquela mortal que o João vai se alimentar? – disse a ruiva. Os amigos dessa vez se olharam com mais apreensão ainda.

- Como é que é? – perguntou Pedin.

- Ele vai o que? – perguntou Paulo César.

- Puta que o pariu! Vamos pessoal! – falou Tiago. A garota ruiva tornou a rir dessa vez seguida pelos amigos.

- Vocês juram que vão sair daqui né? Estamos com fome e mortais por aqui é muito raro, não é rapazes? – falou a ruiva.

- É sim! – falou um dos amigos dela rindo e liderando os outros amigos dela a rir também. Eles começaram a mostrar suas verdadeiras faces. Dentes caninos grandes brotaram de suas bocas, garras apareceram em suas mãos, olhos ficaram vermelhos. Os amigos assustaram-se e viram que não havia alternativa a não ser lutar ou fugir.

- Vamos ter que fugir pessoal! – falou Tiago.

- É uma alternativa! – concordou Rodrigo-sensei.

Eles correram na direção oposta á qual deveria seguir. Foram seguidos de perto pelos vampiros, até que o último da fila foi atingido pelas garras de um dos vampiros, caindo logo em seguida por ter desequilibrado. Tiago bateu forte no chão e foi rodeado pelos vampiros que o ameaçavam com suas presas.

- Droga! Homem ao chão! – falou Paulo César.

- Vamos ajudá-lo! – falou Pedin.

- Não temos alternativa! Temos que ajudar nosso companheiro! – falou Rodrigo-sensei.

Eles voltaram imediatamente. Vieram correndo na direção dos vampiros e acertando-os com encontrões, derrubando três deles, mas eles levantaram-se depressa.

Tiago estava acuado entre eles, protegendo-se com os braços.

- Bom, então mostremos nossas habilidades! – falou Paulo César, que sacou o seu guarda-chuva e dele sacou uma espada bastarda européia. O mais incrível que pareceu foi o fato de o guarda-chuva ser a espada e ninguém nunca ter notado. Tinha uma lâmina aparentemente afiada, mas brilhava com a pouca luz. Rodrigo-sensei sorriu e apenas ficou em posição de luta corporal. Pedin sacou duas pistolas de coldres escondidos embaixo da camisa, coisa que ninguém havia notado até o momento. Tiago levantou-se, meio ferido e juntou-se aos amigos.

- Vocês não vão escapar mortais! Vamos sugar todo seu sangue e prendê-los aqui para sempre! – falou a garota ruiva, agora não mais bonita como antes.

- Isso é o que você está dizendo, minha jovem. – falou Tiago conjurando uma bola de fogo nas mãos, o que os amigos olharam imediatamente.

- Você escondeu isso esse tempo todo? – perguntou Paulo César.

- O que? Você queria que eu saísse mostrando a todo mundo que sei usar magia? Negativo, meu amigo! – falou Tiago sorrindo para PC.

Eles prepararam-se e seguiram para o combate. Pedin atingiu um rapaz de cabelos negros que investiu em sua direção com dois tiros certeiros, um no peito e outro na cabeça. Sua técnica era a mesma usada com atiradores de elite. No caso de Pedin, ele era um especialista em pistolas e com uma mira praticamente perfeita. PC partiu uma garota de cabelos loiros ao meio, ficando um pouco sujo de sangue da mesma. Sua técnica mostrava um Paulo César totalmente diferente do normal: consistia em ficar sem expressão alguma durante a luta e atacar pontos cruciais. Tiago jogou quatro bolas de fogo contra a garota ruiva, acertando apenas três, pois a primeira ela conseguiu esquivar-se. Ninguém havia notado, mas no chão ao redor dele surgira um círculo mágico e inscrições apareceram por seus braços. Sensei acertou com uma rajada de socos um rapaz moreno que o atacou ferozmente, mas apenas o arranhou de leve. Usou técnicas muito superiores a qualquer arte marcial conhecida pelos rapazes. Socos e chutes destrutivos. Mal sabiam os amigos que ele também sabia usar armas brancas com excelência. Praticamente ganha à batalha, os amigos relaxaram um pouco a tensão do momento e dos segredos revelados. Pararam, entreolharam-se e depois sorriram entre si.

- Nossa. Não sabia que você é bom de briga, sensei. – falou Tiago.

- E não sou. Espera só você ver o meu pai... – respondeu Rodrigo.

- E nem eu sabia que tu era mago! – falou PC a Tiago.

- E nem eu que você era um espadachim! – replicou Tiago.

- É... E Pedin é bom de bala! Gostei da sua mira, calouro! – falou Rodrigo para Pedin que apenas continuou a olhar para os vampiros no chão.

- Acho que ainda não é hora para conversarmos amigos! – falou Pedin apontando para os vampiros que estavam recompondo-se dos danos que haviam sofrido, com exceção da ruiva, que permanecia imóvel e carbonizada. E o interessante também era o fato de que ela estava transformando-se em pó.

- Puta que o pariu! – xingou Tiago.

- Será que é igual aos filmes? Temos que acertar os corações deles? – perguntou Pedin.

- Rapaz... A ruiva ta imóvel ali. Pode ser que ela tenha morrido... – observou Rodrigo-sensei.

- É... Já vi que fogo os mata! – falou Tiago conjurando bolas de fogo novamente.

- Eu acertarei o coração pra ver no que dá! – fala Pedin atirando novamente contra o mesmo que ele havia derrubado e acertando-o novamente só que dessa vez os dois tiros foram no peito um pouco deslocado para o lado esquerdo, no coração, derrubando-o novamente com um urro de dor do vampiro e sua transformação imediata em pó. O que aguçou os sentidos dos amigos.

Paulo César acertou a loirinha mais uma vez, só que dessa vez atravessando-a com a espada no peito e puxando a lâmina para a esquerda do corpo dela, e direita dele, partindo-a mais uma vez e vendo o pó espalhar-se. Sensei acertou o vampiro com dois socos no rosto, deixando-o tonto. Logo em seguida acertou alguns socos no peito do vampiro moreno, fazendo-o desequilibrar e em seguida derrubando-o com um chute para a finalização de Tiago com duas bolas de fogo em cheio no alvo, reduzindo-o a pó. Após acabada a tensão os amigos olharam ao redor e impressionaram-se com a quantidade de pessoas que observavam a luta. Aproximadamente uns 50 alunos rodeavam o local.

- Puta que o pariu! – essa foi a vez de Rodrigo xingar.

- Aff... Agora o bicho pega... – falou Paulo César.

- Fudeu de vez... Estou quase sem energia... – falou Tiago aparentemente cansado. – Tenho que recarregar...

Pedin olhou os pentes das pistolas.

- É... Acho que ainda dá pra tentar algo! – ficando a postos, assim como todos do seu grupo. Alguns vampiros pareceram surpresos com a persistência daquele grupo mortal, e o pior é que um deles era usuário de magia.

- Não estamos querendo briga mortais! Estamos apenas observando o quão habilidosos são. – falou um senhor de cabelos grisalhos, rosto enrugado, vestido com um terno e que aparentemente poderia ser um professor. – Você, mortal das mãos de chamas, onde aprendeu isso?

- Segredos não podem ser revelados, meu caro. Sinto muito. – respondeu Tiago.

- Sem problemas... Eu ouvi vocês dizendo que queriam informações... Quais seriam? – perguntou o senhor. – A propósito, sou o professor Juliano Garcia, de cálculo II.

- Rodrigo, Tiago, Paulo César e Pedro. Somos de História. – fala Rodrigo apontando para si e depois para os amigos. – A informação que queríamos era apenas pra saber onde fica o CA de Química do Petróleo.

- No setor IV, próximo ao departamento de Química do Petróleo. Posso levá-los até próximo, mas não até o destino... Aquele local é muito hostil, até para nós... Não somos imortais como costumamos nos nomear. Somos imortais para o tempo e não para sua magia e suas lâminas... – falou o professor Juliano. – Sinto muito se alguns garotos aqui gostam de comprar brigas... É porque ultimamente o alimento está escasso...

- Entendemos bem... Mas, se alguém tentar se alimentar novamente de nosso sangue acho que não se sairá muito bem... – falou Rodrigo.

- Depende do poder do vampiro, meu jovem... Mas, mesmo assim, acho que seguirei o seu conselho, assim como esses rapazes e moças aqui ao redor... Não é mesmo? – falou ele olhando para os alunos que observavam tudo e que concordaram imediatamente com o professor.

- Bom, então... O senhor poderia nos levar até o nosso destino, professor? – perguntou Tiago.

- Claro! Sigam-me! – fala o professor Juliano seguindo na direção do setor IV.

O caminho não era longo, pois o setor IV era praticamente junto com o setor III. Por mais que fosse tão perto no mundo normal, eles realmente andaram bastante para chegar aos limites do setor IV. Os charcos tinham uma coloração amarelada ao redor do setor IV, e um odor de ovos podres invadia as narinas dos mortais. O professor Juliano pareceu notar o incômodo dos amigos e sorriu.

- Deve ser um odor desagradável para vocês, correto? Nós não sentimos cheiro, por isso não nos incomodamos. As maiorias dos nossos sistemas não funcionam mais... Como vocês devem saber, vampiros não são vivos... – explicou o professor.

- Sim... Mas, está muito desagradável... – falou Rodrigo sentindo náuseas e quase vomitando.

- Concordo... Estou até me sentindo tonto... – falou Tiago.

Pedin e Paulo César estavam impassíveis. Era como se aqueles odores não incomodassem, ou pelo menos eles não estivessem sentindo os efeitos que os outros dois.

- Hehehe... Não se preocupem. Já estamos bem próximo do nosso destino... – falou o professor.

Eles seguiram por mais alguns metros e o professor parou bruscamente. Todos olharam surpresos para ele.

- O que foi professor? – perguntou Pedin.

- Aqui é o meu limite. Daqui vocês seguem sozinhos. O departamento é aquele prédio ali. – fala o professor apontando para um prédio de térreo um pouco afastado dos blocos de aula. – É lá onde funciona o CA de Química do Petróleo. Bem, eu só tenho de desejar a vocês sorte.

- Obrigado! – falou Rodrigo apertando a mão do professor.

Eles despediram-se da turma que os seguia e foram em direção ao prédio do departamento. O local era um tanto conservado, se comparado aos outros por onde haviam passado. Nesse havia uma porta e estava curiosamente aberta, como se alguém já estivesse esperando por visita. Os amigos estranharam tal fato, mas não os impediu de adentrar o prédio.

***

- Direto para a boca do leão... – falou o professor Juliano. Todos ao seu redor riram.

***

Dentro do prédio era como se eles estivessem no mundo normal. Tudo era impecável. Cadeiras e bancos novos, luzes fortes, pintura vinho nova em folha, vidros inteiros, balcões novos, chão encerado... Tudo nos conformes. Era como se eles não só tivessem voltado para o seu mundo normal, como se aquele lugar fosse o único que recebera a verba para reparos em toda a UFRN. O local ainda conseguia ser mais imponente que a reitoria, para o estranhamento dos amigos. Como podia existir um local como aquele em um lugar totalmente destruído? Eles foram à busca das respostas e adentraram o local.

Havia um recepcionista ouvindo um iPod sentado atrás de um dos balcões. Ele era magro, muito pálido (como os outros), sobrancelhas grossas, mãos grandes, queixo quebrado e orelhas pequenas. Estava vestindo uma camisa branca da UFRN, usando calças jeans e tênis “all-star” vermelho. Estava com os pés sobre a mesa, assim como se estivesse descansando. Pareceu não notar os rapazes, por se manter de olhos fechados.

Pedin adiantou-se e tocou de leve nos pés do recepcionista com uma das pistolas, o que fez que o rapaz desse um salto com o susto, e ainda mais uma pistola apontada para ele.

- Amigo. Você poderia me dizer onde encontro João? Ou o CA de Química do Petróleo? – falou Pedin em tom ameaçador. O recepcionista pareceu gostar da situação.

- Pois não, colega! Siga nesse corredor a sua direita, logo no final vire a esquerda que você verá a porta da sede do CA. Não tem erro! Você vai ver escrito na porta. – falou o recepcionista com um sorriso.

- Valeu... – falou Pedin virando as costas para o recepcionista e começando a seguir na direção indicada, mas foi impedido por Paulo César.

- Calma aí calouro. Você confia fácil assim no que te falam é? – perguntou Paulo César.

- Não. Mas, pela ameaça creio que ele nos daria a informação correta. – falou Pedin.

- Muito ingênuo você, Pedin. – falou Tiago. – Ele te deu a informação sorrindo.

O recepcionista continuava a debochar da situação.

- Por que confiaríamos em você, sanguessuga? – perguntou Rodrigo-sensei.

- Hahaha... Vocês confiam em quem quiserem mortais. Eu apenas dei a informação que foi solicitada. – falou o recepcionista com um sorriso.

Os amigos o olharam com ferocidade, o que deixou o recepcionista mais satisfeito ainda. No sorriso ele até mostrou de leve suas presas, como se ele estivesse preparando-se para algum embate. Segundo o que os amigos observaram as presas dos vampiros só ficavam a mostra quando ele queria ameaçar, lutar ou se alimentar. Isso só significaria que eles iriam lutar novamente.

O vampiro mostrou completamente as presas e as garras. Os olhos negros ficaram vermelhos.

- Ninguém irá perturbar a celebração de sangue de João! E aquela mortal vai ser o prato principal da noite! Saiam daqui ou morram, assim como vai acontecer a ela! – ameaçou o vampiro.

- Com certeza vamos sair, mas com ela vindo conosco! – respondeu Rodrigo já ficando em sua base de luta.

- Então morram e sirvam de alimento para alguns de nós! – falou o vampiro avançando em cima de Rodrigo que estava logo à frente dele e agarrando-o e mordendo-o no pescoço, o que dificultou e muito para os que usariam artifícios baseados em distância.

Pedin e Tiago ficaram sem ação, mas Paulo César avançou com sua espada e acertou o vampiro nas costas, fazendo-o soltar Rodrigo e virar-se para ele. Foi notória a força desse vampiro. Era como se ele usasse uma armadura, pois o corte da espada não surtiu quase nenhum efeito. Rodrigo estava sangrando muito e segurava o ferimento, o vampiro havia mordido em sua jugular e drenado um pouco de sangue. Tiago puxou-o pelos pés, falou algumas coisas em uma língua totalmente estranha e uma luz verde de suas mãos começou a curar lentamente o ferimento de Rodrigo.

Paulo César se virou como pode com o vampiro, defendeu vários golpes, mas mesmo assim ainda estava ferido na barriga e no braço esquerdo, ferimentos esses causados pelas garras do sanguessuga. Ele também acertou alguns golpes, mas esse rapaz era muito mais rápido que os outros... Era como se uma de suas habilidades vampíricas fosse essa.

Pedin adiantou-se e mirou enquanto Paulo César acertava alguns golpes no vampiro e errava outros. Pedin pensou: “se eu acertá-lo no coração enquanto PC luta com ele, iríamos derrubá-lo fácil...”, e passou a mirar o peito do vampiro, que se movia rápido e muitas vezes fazia PC tomar o lugar dele, o que para Pedin poderia ser um risco acertar o amigo. Mesmo com o risco, ele decidiu atirar. Poderia não ter atirado, pois acertou o ombro de Paulo César, derrubando-o com o impacto, e para a felicidade do vampiro que até agradeceu com um gesto. Ele abaixou-se para morder Paulo César e Pedin, que estava um pouco assustado por ter acertado o amigo, atirou até descarregar as armas no cara. Acertou aproximadamente 4 tiros, pois os demais ele esquivou e estava escondido numa esquina de corredores olhando pelo canto da parede. Paulo César tremia no chão e gemia de dor e Pedin estava com as armas vazias... Estavam vulneráveis, pois Tiago ainda estava curando Rodrigo.

- Caralho! Ele vai atacar! – falou Tiago, forçando a cura para ser mais precisa e acelerada. O vampiro vinha andando lentamente. Pedin atrapalhou-se ao destravar as armas pra tirar os pentes e deixou uma cair. Paulo César nada podia fazer, pois a sua espada tinha caído com o impacto do tiro, e justamente era ela que o vampiro trazia nas mãos.

- Tiago... Pare a cura e ataque ele... – falou com dificuldade Rodrigo-sensei.

- Não posso Rodrigo! Você perdeu muito sangue! – falou Tiago.

- É... Mas, se não fizermos alguma coisa todos vamos morrer...

- É verdade... Agüente firme! – falou Tiago parando a cura e o sangramento de Rodrigo voltando, só que bem lento dessa vez, e Rodrigo ainda estancava o sangue segurando o ferimento.

Tiago conjurou uma bola de fogo e lançou contra o vampiro, que pareceu surpreso com o ataque mágico em sua direção. Enquanto a bola de fogo seguia, Tiago conjurou relâmpagos nas mãos e lançou também contra o vampiro. Da bola de fogo ele escapou, mas não esperava os relâmpagos que o atingiram em cheio, rasgando a roupa e atravessando-o como se fosse uma faca quente na manteiga. O mais interessante foi o raio ao bater na parede, voltar como se fosse um espelho e atingindo mais uma vez o vampiro e seguindo a linha reta, para morrerem nas mãos de Tiago.

O vampiro caiu desnorteado no chão e arquejando. Soltou a espada de Paulo César bem próximo a ele, que estava perdendo a consciência. Tiago só conseguiu ver o borrão de Rodrigo passando por ele pegando a espada de PC e finalizando o vampiro com um golpe certeiro no coração, reduzindo-o a pó, porém também aumentando o seu sangramento com o esforço que Rodrigo fez. Tiago adiantou-se, tocou no ombro de Pedin com as mãos com a luz esverdeada, que o fez acalmar-se um pouco e se concentrar melhor na recarga da arma, e avançou para cuidar de Rodrigo que ainda sagrava muito, bem mais que Paulo César, que pelo que ele viu eram muito duro na queda e no sangramento, mas ele estava inconsciente no momento. Tiago continuou a cura de Rodrigo agora com mais concentração, conseqüentemente mais rápido, para cuidar logo do seu amigo PC.

Ao terminar a cura de Rodrigo, Tiago estava um tanto cansado, mas não desanimou, seguiu logo para cuidar do seu amigo Paulo César. O primeiro passo foi remover a bala do braço dele, e depois começou o processo de cura pela barriga ferida, depois seguindo para o braço esquerdo e por último o ombro direito onde Pedin havia acertado a amigo, o que não tinha deixado o calouro em bom estado. Ele culpava-se a todo instante pela queda de Paulo César.

- Ah, cala a boca calouro! Deixa Tiago se concentrar! – falou Rodrigo.

- Eu sei homem! Mas, eu devia ter mirado melhor... – falou Pedin.

- Ta bom, Pedin. Agora já era. Só se concentrar melhor na próxima. – falou Tiago terminando a cura de Paulo César. – Acorda aí velho!

Paulo César abiu os olhos, pegou a espada, levantou de um salto já a postos.

- Cadê o filho da puta? – perguntou alterado PC.

- Já era. Rodrigo o finalizou com essa espada aí. – falou Tiago.

- Ah... Foi com essa? Ah... Beleza então... – falou PC ficando mais calmo. – Ah sim. Valeu pelo tiro, calouro.

- Que é isso homem... Foi sem querer... Eu queria era detonar o vampiro... – tentou se explicar Pedin.

- Calma rapaz. É só onda. – falou PC sorrindo para o calouro.

- Mais homem... Eu me senti culpado... – falou Pedin.

- É... Eu sei... Mas, deixa isso pra lá. – falou PC batendo de leve no braço do calouro.

- Sim, mas vamos procurar a Emili, né? – falou Rodrigo.

- Vamos.

Os amigos começaram a seguir caminho na direção apontada pelo vampiro, até que ouviram um grito de “socorro” da inconfundível voz da caloura Emili. Pedin e os outros se entreolharam.

- Emili! Onde você está?! – gritou Pedin.

- Socorro! Me ajudem! – mais uma vez gritou Emili.

- Emili! – gritou Pedin mais uma vez.

- Pedin! É você Pedin?! Socorro! – gritou mais uma vez Emili, mas foi bruscamente silenciada.

- Emili!! – gritou Pedin. – Droga! Ela ta em apuros cara!

- Vamos seguir na direção do grito! – falou Tiago indo na direção oposta a que eles estavam seguindo.

Eles caminharam por um corredor bastante longo e cheio de salas. Eles separaram-se e saíram abrindo porta por porta, mas sem sucesso. O prédio parecia vazio. Até que ouviram mais uma vez o grito de socorro da Emili e seguiram em frente, sem parar em nenhuma das salas adjacentes, e sim seguindo para a porta no fim do corredor.

Ao chegar lá, na porta tinha escrito “sala de reuniões ordinárias”. Pedin adiantou-se e meteu o pé na porta, fazendo-a abrir e soltar-se das dobradiças.

O ambiente dentro da sala era muito estranho. Uma mesa imensa era posta ao meio da sala, só que essa mesa, atualmente estava servindo de altar, onde Emili encontrava-se amarrada e rodeada de sangue. As paredes eram negras, velas estavam acesas, incensos também aromatizavam o local. Crânios eram vistos próximos a garota assustada, e ela estava ferida no pulso esquerdo, de onde saia sangue direto para uma taça. Ninguém estava à vista, com exceção da garota Emili.

Pedin adiantou-se para verificar a amiga.

- Você está bem Emili? – perguntou Pedin.

- Cuidado! Ele está por aqui! – foi só o tempo de ela falar, Pedin foi acertado em cheio na barriga pelo punhal do vampiro que surgiu como se por mágica na frente dele.

- Argh... – foi só o que Pedin conseguiu dizer antes de recuar para perto dos amigos.

O vampiro que apareceu ele era muitíssimo pálido, careca, usava quatro brincos na orelha esquerda, piercing na sobrancelha grossa, nariz um pouco grande e arredondado, rosto grosseiro e tinha um porte físico atlético.

- O que vocês querem aqui mortais? Ela já é minha! Caiam fora! – falou o vampiro recém chegado.

- Você é que é o João? – perguntou sensei.

- Quem gostaria de saber? – perguntou o vampiro.

- Rodrigo. Creio que não só a mim, mas meus amigos também têm interesse em você... Em destruir você, desgraçado! – ameaçou Rodrigo.

- Assim será divertido. E vou saciar minha sede de anos... Cinco são bem melhor do que apenas uma. Hahahaha... Sim, eu sou o João, e essa garota vai ser minha criança. – falou João.

- Que bom que você é João... – falou Tiago – Assim não vamos matar o vampiro errado.

- Santa ignorância a de vocês, mortais. Acham que vão lutar diretamente comigo? – falou João estalando os dedos e adentrando na sala mais dois vampiros.

- Desgraça... Temos que ser rápidos Tiago. Emili ta perdendo sangue... – falou PC.

- Estou ciente... Vamos logo acabar com isso... – falou Tiago preparando-se para usar a magia.

- Não. Você não... Cuide de Pedin que também ta ferido. – falou Rodrigo.

- Exatamente. – concordou Paulo César sacando sua espada e puxando da bolsa uma adaga e passando para Rodrigo. – Esses dois são nossos.

- É... E o fodão ali? – perguntou Pedin ferido e cuspindo um pouco de sangue.

- Você é capaz de atirar Pedin? – cochichou Tiago.

- Sou... Mas, vai ser difícil... – respondeu o calouro.

- Então mete bala nele enquanto eu te curo! – falou Tiago.

- Beleza. – Pedin disse sacando uma das armas e surpreendendo João com dois tiros certeiros no peito do rapaz, que recuou alguns passos.

O vampiro olhou com ódio para o calouro que estava sendo curado com rapidez por Tiago, que continuava a falar em uma língua desconhecida e aumentava mais e mais a potência da cura, terminando o serviço em poucos minutos.

- Desgraçados! – gritou João avançando para Tiago e Pedin, mostrando suas garras e presas. Pedin arriscou outro tiro, mas o vampiro simplesmente sumiu da frente dele, surpreendendo tanto Pedin quanto Tiago.

Eles levantaram-se, mas Tiago parecia fraco e muito cansado. Pedin até prometeu dar cobertura para ele seguir logo e dar auxílio à Emili, que estava já ficando mais pálida do que de costume. O tom avermelhado dos lábios da jovem estava ficando rosado e sem vida.

Enquanto Paulo César e Rodrigo destruíam seus oponentes, João surgiu mais uma vez com o punhal tentando acertar Rodrigo, que esquivou de última hora.

Pedin atirou contra João e errou por causa da rapidez do vampiro. Tiago ainda lançou um dos seus relâmpagos que só acertou o vampiro oponente de Paulo César, e derrubando-o, deixando livre para PC finalizar o infeliz que nada pode fazer para defender-se. Rodrigo-sensei conseguiu finalizar o seu oponente também, para todos estarem aptos a enfrentarem em grupo o João.

Tiago, que estava incumbido de cuidar da Emili, seguiu o mais rápido que pode em direção da jovem, que já estava quase perdendo a consciência. Ao chegar a ela, segurou delicadamente no rosto dela e pediu para ela olhar para ele. Ela fez todo o esforço, mas não conseguia se manter firme.

- Olha pra mim, Emili! – repetia Tiago.

- Não... Consigo... – ela falou lentamente e voltando a fechar os olhos.

- Não durma! Não durma! Olha pra mim, Emili! – mais uma vez falou Tiago. Ele começou a falar na língua estranha e começou a restabelecer o sangue perdido de Emili, com as mãos com a luz esverdeada da cura. O sangue que estava presente na taça lá continuou, pois a cura conseguia fazer com que o corpo restaurasse o sangue perdido, produzindo seis vezes mais hemácias e recompondo o sangue perdido em minutos. Tudo parecia bem, até que mais uma vez João mostrou-se.

- Acharam que tinham vencido mortais? – falou em tom de deboche.

- Não. Na verdade esperávamos você deixar de ser um covarde! – falou Pedin com as duas pistolas em punho e mirando o alvo.

- É inútil mortal. Essas coisas não fazem efeito algum em mim. Sou mais rápido que seus tiros e mais resistente que seus coletes. – falou João. Rodrigo aproximou-se de Tiago e cochichou.

- Tiago, cuide dela que a gente cuida dele.

- Entendido. – concordou Tiago. Emili até já estava adquirindo sua cor rosada e o tom avermelhado dos lábios. A cura estava sendo um sucesso.

Então, começou o combate decisivo. Paulo César e Rodrigo adiantaram-se para o corpo-a-corpo, enquanto Pedin ficava na retaguarda aguardando uma chance que sempre tinha de acertar uma bala em João. O combate estava desnivelado ao extremo. Por mais esforço e empenho que os amigos tinham, maior também era a resistência, persistência e força de João.

O primeiro a cair dos amigos foi Rodrigo, com um sério ferimento no peito, muito profundo e que ocasionou na perda de fôlego, força e resistência de Rodrigo, reduzindo-o a expectador do combate. Paulo César caiu em seguida com ferimentos nas costas, no pescoço e nas costelas. Tudo parecia perdido, mas Pedin ainda tentava, em vão, acertar João com seus tiros. Pedin caiu com tiros de sua própria arma, arrebatada por João.

O vampiro cantou sua glória, e preparava-se para finalizar o embate, derrubando também o mago cansado que cuidava da amiga ferida. Tiago olhou para a consciente Emili e tocou de leve nos cabelos dela.

- Bom... Isso é um adeus? – falou saindo de perto dela e conjurando relâmpagos para tentar lutar, mas não havia energia suficiente, lançando apenas um pequeno choque elétrico que ocasionou o riso do vampiro.

- Minha glória mortal, sua derrota. Aceite a derrota! Morra e seja nosso alimento! – falou o vampiro com olhos malignos e ameaça na voz.

- Se é pra matar, que seja breve e pare de falar besteiras aí! – falou ferozmente Tiago por achar que aquele seria o seu fim.

João avançou e acertou Tiago em cheio no peito, fazendo-o cuspir muito sangue e ficar com um rombo feio nas costelas e pulmões. Em um último momento ele olhou para os amigos, ali também debilitados e muito fracos.

- É... Amigos... Foi... Foi uma... Honra pra mim... Ter lutado... Com... Com... V-vocês... – falou com dificuldade.

- Pra... P-pra mim... Não... Houve maior... Felicidade... – disse também com muita dificuldade Rodrigo.

João olhou para a cena com deboche. Imitou o falatório com sarcasmo e ainda fez gesto de uma franja na frente do olho e depois caindo na risada. Tudo estava perdido para os amigos. Eles esperavam apenas que João tivesse um pingo de consideração e acabasse logo com aquilo, mas ele estava ocupado demais se divertindo com a cara dos moribundos e deixando-os curtir o sofrimento o máximo que podiam.

De repente, é ouvido um uivo ensurdecedor vindo de fora da sala, deixando João totalmente amedrontado. A porta da sala foi botada a baixo e uma figura de aproximadamente dois metros e meio de altura passou por ela. Era uma criatura exótica, uma mistura de lobo com homem: corpo aparentemente de homem atlético, mas coberto de pêlos cinzentos; focinho e cabeça de lobo; mãos poderosas portando garras imensas; patas traseiras de lobo (nas quais ele mantinha-se de pé como um homem). Altamente feroz: babava e rosnava para o vampiro, que também ameaçava e mostrava as garras para o lobisomem.

- Desgraçado! Péssima hora para aparecer! Era o meu triunfo! – gritou João. O lobisomem pareceu sorrir com o desespero do vampiro. Rosnou mais alto e avançou.

A luta foi sangrenta. Tanto vampiro quanto lobisomem usavam suas garras para dilacerar a parte do corpo do outro ao qual atingia, mas era evidente de quem seria a vitória. João descuidou-se um momento e foi destroçado pelo lupino, virando pó.

Os amigos que observaram sem nada poder fazer aguardaram que o lobisomem após o vampiro, quisesse um pouco mais de carnificina e finalizasse-os, mas não ocorreu. A criatura apenas olhou para os amigos debilitados e a garota amarrada sobre a mesa. E então ele mostrou sua verdadeira forma, e saindo da forma hibrida. O mais impressionante é que ele estava vestindo roupas ao destransformar-se. Usava uma bermuda jeans, camisa pólo listrada azul e no rosto uns óculos. Foi reconhecido na hora.

-Saulo! – falou Paulo César com dificuldade.

- Sou eu mesmo cambada. Agora fiquem calmos aí que eu vou conseguir ajuda. – falou Saulo um tanto preocupado com os amigos.

- Mas... Não só seria... Pela manhã que poderia sair daqui? – falou Rodrigo.

- Vocês. Não eu. Posso entrar e sair daqui quantas vezes eu quiser. – respondeu Saulo.

- Como? – perguntou Pedin.

- São segredos de raça amigos. Mas, depois com calma eu conto a vocês. Num momento oportuno. – respondeu com firmeza.

Saulo saiu e demorou cerca de dois minutos pra voltar com outra pessoa capaz de usar magia e curar os feridos. Esse mago usava sua cura com excelência, e não precisava falar na língua antiga, mostrando assim sua altíssima experiência. Saulo apresentou o mago como sendo um lobisomem também e ele se chamava Leonardo e aparentava ter por volta dos 40 anos de idade.

Depois de todos recuperados, caloura desamarrada e cuidada, Saulo informou-os como sair da penumbra sem precisar esperar o amanhecer, mas já estava bem próximo disso, eram 3:46 da manhã.

- Acho que busão pra casa a gente já não tem mais, não é mesmo sensei? – perguntou Tiago em tom animado.

- Com certeza. Nada de “direto na Maria, volta Abel... Aceita vale, aceita estudante”. – falou Rodrigo e todos riram.

Eles seguiram Saulo até onde seria o setor II da UFRN, e lá ele explicou que um dos poderes da raça era a possibilidade de romper as películas que ligam o mundo normal da penumbra, e deu uma demonstração do poder levando-os de volta para o mundo normal. Ao chegar lá, constataram que realmente tinham voltado: a aparência dos blocos era a que eles estavam acostumados e não havia pessoas pálidas observando-os. O problema foi despistar a segurança, mas nada tão difícil quanto foi salvar a jovem Emili.

Ao saírem do território do campus, andaram bastante até onde o companheiro de raça de Saulo havia deixado seu automóvel (por sorte ele tinha um), e então ele saiu deixando os jovens em casa. No caminho:

- Pessoal... Nem sei como agradecer a vocês por terem me salvado... – falou timidamente Emili.

- A nós? Nada! Agradeça a Saulo que chegou na hora certa. – falou Rodrigo-sensei.

- Que nada “rapeize”. Vocês lutaram bem. Eu só fiz terminar o que vocês começaram. – falou modestamente Saulo.

- É... Se tu num aparece, a gente virava ensopado pro sanguessuga lá. – falou Paulo César.

- E vocês os chamam assim também? –perguntou Saulo.

- De quê? De sanguessugas? – perguntou PC.

- Sim. Nossa raça que costuma chamá-los assim. – falou Saulo.

- E é? Ah ta! – falou Paulo César.

- Bom, que falem quem quiser. O importante é que estamos vivos e que conseguimos salvar Emili! – falou Rodrigo, recebendo as vivas de todos pelas palavras e deixando mais vermelha ainda a tímida Emili.

- Gente... Obrigada... – falou Emili e todos sorriram pra ela.

O caminho até em casa foi divertido. Muita conversa e muitas piadas dos amigos, até Leonardo ficar só no carro e voltar para sua residência.

No dia posterior ao chegarem à faculdade os amigos reúnem-se no corredor antes da aula. Estavam presentes no grupo: o calouro Pedin, a caloura Emili, Tiago, Rodrigo, Paulo César, Tyego, Saulo, Helaine e algumas outras pessoas, não contando a história do que ocorrera na noite anterior, mas sim discutindo sobre as provas que estavam por vir. A noite anterior seria um segredo para o grupo que havia participado do fato. Segredos que jamais seriam revelados dentro ou fora da UFRN, mas que apertou laços de uma amizade que jamais morrerá. Laços de um pacto inquebrável entre esses amigos... Uma aliança, um tesouro...

Algumas explicações: [àqueles que não são RPGistas]

· Penumbra: Muitos que lerem vão entender “penumbra” como sendo uma noite com lua, uma noite meio que iluminada, pois seria esse o real significado para “penumbra”. Mas, no caso a “penumbra” seria um mundo alternativo, como um mundo dos espíritos. Mas, nesse caso habitado pelos vampiros, estes saindo apenas para alimentar-se no mundo normal. Lobisomens possuem poder de passar de um lado para o outro assim que desejar, do mesmo jeito o vampiro (mas apenas a noite).

· Vampiros: Normalmente o vampiro não mostra suas presas e garras. O vampiro aparentemente é uma pessoa comum, com a peculiaridade de palidez. Suas presas e garras só aparecem quando pretende usar seus poderes vampíricos para caça ou alimentação. Usar poderes apenas para impressionar ou fugir não é necessária a manifestação das presas e garras. O vampiro é uma espécie de morto-vivo, onde as funções do corpo já não existem, com exceção do cérebro, visão e tato. Vampiros não comem (só bebem sangue – para esse alimento eles sentem sabor do sangue), não respiram, não sentem cheiro.

· Celebração de sangue: Seria uma comemoração do predador pela captura de uma presa, onde um vampiro líder serve alguns convidados com o sangue fresco da presa e após drenar todo o sangue da vítima, transformá-la em vampiro.

· Localização do pessoal por Saulo: Os lupinos possuem habilidades diversas, e uma delas é herdada do lobo: o faro. Através do faro Saulo foi capaz de localizar os amigos e detectar também que estavam em perigo (cheiro de sangue misturado ao cheiro deles; cheiro de sanguessuga – que é sempre o mesmo).

· Magia de Leonardo: Alguns lobisomens possuem poderes místicos, assim como os magos, mas um tanto que especializados, ao invés de usarem todos os poderes. No caso de Leonardo ele era um curandeiro.

· Chamado a Leonardo: Através de uivos os lobisomens se comunicam. No caso, Leonardo estava a postos e ao ouvir o uivo de Saulo antes de adentrar a sala, ele já havia seguido em direção do prédio, por isso ele apareceu tão rápido.


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